sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Tequila e muita carne

Olhos largos, apimentados. Ela me olha com jeito terrorista, malícia carnívora. Lola estava sumida, cheguei a pensar que havia mudado de trabalho, ou mesmo de cidade. Já sentia falta daquele jogo dúbio, principalmente quando nos encontrávamos nos corredores da Agência. Fazia questão de puxar o elástico submerso, creio que só pra tumultuar minha respiração, causar tempestade nos meus sentidos primitivos. Não tenho dúvidas, sempre senti vocação para navegar naquelas águas caudalosas.

Preparo a melhor tequila do mundo, isso digo por conta dos sucessivos elogios recebidos ao logo de anos. Só entrego parte da receita: água com gás, gelo, limão, açúcar, muita tequila e... bis, bis. Estava no segundo copo, o telefone toca: Quero teu endereço, Bruno Jangadeiro, preciso te ver com urgência! Lola nunca foi de me telefonar. Permaneci como estava, nu, e como costumo ficar em casa; lendo uma reportagem sobre a sexualidade dos hipopótamos (eles ficam dias amando, ou melhor, trepando), bebendo minha tequila e ouvindo música flamenca – esperando aquela mulher de atributos generosos.

Chegou efusiva. Um beijo de língua nervosa. Uma rodada de corpo e copos e ouço o toque do elástico luxurioso – gesto costumeiro, no corredor da Agência - som de violino pervertido, lira de carne e brasa, bruxaria para meus apetites infindos. Num lampejo de conversas amenas, ela liberta dois pássaros rosados na minha cara de todas as sedes. Reajo com a fúria de um século de sede e fome. Lola diz, quase gritando: preciso de mais tequila e quero carne aflita, quero músculo tenso; e ordenou que navegasse em seu rio de águas profundas, remasse firme e forte com meu remo de madeira de lei. Navegar é preciso, Bruno, navegar é preciso, já dizia um louco poeta português. Viva todos os barcos, velas, canoas, navios, caravelas de todos os mares de todos os mundos possíveis! Ó Bruno, deixe teu submarino pirata descobrir segredos de civilizações perdidas! Seja um escafandrista das profundezas! 

Lola unta o corpo com suco de frutas ácidas, geléia de fígado de peru, azeite de mocotó, e dança uma dança tribal da Mongólia (é metida a antropóloga), depois brinca de pilates com a minha terceira perna. A pegada não está prevista na inocência do kama sutra. Pede para que eu calce as botas de alpinista - acho excitante, ela diz. Entra em estado de delírio. Dentes firmes, afiados, sofreguidão, mordia impiedosamente o braço esquerdo do sofá (comprei no Armazém Paraíba, faltam cinco prestações). Eu vivia a loucura em carne viva, Afrodite chafurdando o meu juízo.  Enquanto se contorcia, movimentos desesperados, língua inflamável, Lola falava da presença dos quenianos na corrida de São Silvestre. 

Cinco da manhã. Lola ainda com sua sarça em chamas. Eu, quase derrotado pela fartura de tequila e carne, acordo com a voz do motorista da Transbrasiliana: Senhor, já chegamos a Imperatriz!

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