Enquanto eu preparava a lingüiça, ela olhava para minhas mãos e dizia, suspirando preguiçosamente: mãos longas podem oferecer uma boa massagem. Eu sorria com certa distração, pois naquele momento meu foco não era outro senão auxiliar Suzy no preparo da feijoada – cardápio que ela executa com maestria. A caipirinha estava no ponto. Preparávamo-nos para o sábado de carnaval. Suzy com aquela saia curtinha, pernas atraentes, roçava os quadris no meu antebraço e pedia pressa na lingüiça. Ao olhar aquelas pernas tão-carne, tão carnavalescamente, tão escandalosamente belas (e o conceito de beleza me é tão singular), me ponho a cantarolar aquela inesquecível estrofe, versos carnais, de Caetano: Escuras coxas duras/ Tuas duas de acrobata mulata/ Tua batata da perna moderna/ A trupe intrépida em que fluis...* Ela acha engraçado e me diz que nunca sofreu cantada de um massagista.
Trabalho na Clínica de Fisioterapia somente à noite, na ala de geriatria. Massagem é minha especialidade. Melhorei minha qualidade profissional graças às generosas aulas de uma afoita monja tibetana. Depois que troquei o pneu do carro de Suzy, ela e a vó me tratam com impecável carinho. Mas percebo que a neta olha para minhas mãos com as retinas molhadas de malícia. Desde então, essa mulher de quadris desobedientes – animal no cio - ronda meus passos, meu paladar indigente.
Comemos, comemos e bebemos, e bebemos. A feijoada estava terrivelmente apetitosa. Muita pimenta e caipirinha. Ligamos a TV, a jornalista noticia: “O premier italiano Silvio Berlusconi promovia a festa do bunga-bunga em sua mansão...” Chegamos à avenida lotada de foliões. A banda se esgoelava, cantando: “Mamãe eu quero, mamãe eu quero/, Mamãe eu quero mamar!” Hoje farei minha melhor sessão de massagem, ela vai entrar em transe, verá estrelas multicoloridas, cogitava eu enquanto olhava o ventre de Suzy.
Ao lado, o Bosque dos Ipês com seus quiosques e bancos e árvores e pássaros e cheiro de urina. Olhei para a batata das pernas de Suzy, onduladas, brilhavam como a pele de uma maçã selvagem. Começamos a dançar e dançávamos qual loucos vadios. Suzy ondulou os quadris contra meu braço direito, rodopiou, erguia e baixava toda aquela graciosa estrutura corporal com a vertigem de um pássaro embriagado de liberdade, pólvora às vésperas de explodir.
Eu a acompanhava naquele embate de sedução, extravagância de desejos guardados, reprimidos talvez. Sentia-me agitado, arrebatado pela chama ferina de Suzy. Setenta mil beijos, setenta mil fósforos a um milímetro da labareda. Ela pega minha mão, segura com firmeza, força de quem sabe o que quer, senhora de seus passos, e me conduz para o escuro do Bosque. Juntos, corpos ofegantes, suados, febre sem aspirina, desejo improrrogável. Ela, olhos marejados, quase murmurando, prendendo os lábios, fala: Não dá pra segurar, foi a feijoada! E eu, atônito, voz rouca, também confidencio: Foi a feijoada!
Pensamos em nos casar no próximo Carnaval. O amor também entende de dor e jardinagem.
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*Canção “Fora de Ordem”, Caetano Veloso.

