sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Feijoada e Carnaval


Enquanto eu preparava a lingüiça, ela olhava para minhas mãos e dizia, suspirando preguiçosamente: mãos longas podem oferecer uma boa massagem. Eu sorria com certa distração, pois naquele momento meu foco não era outro senão auxiliar Suzy no preparo da feijoada – cardápio que ela executa com maestria. A caipirinha estava no ponto. Preparávamo-nos para o sábado de carnaval. Suzy com aquela saia curtinha, pernas atraentes, roçava os quadris no meu antebraço e pedia pressa na lingüiça. Ao olhar aquelas pernas tão-carne, tão carnavalescamente, tão escandalosamente belas (e o conceito de beleza me é tão singular), me ponho a cantarolar aquela inesquecível estrofe, versos carnais, de Caetano: Escuras coxas duras/ Tuas duas de acrobata mulata/ Tua batata da perna moderna/ A trupe intrépida em que fluis...* Ela acha engraçado e me diz que nunca sofreu cantada de um massagista.

Trabalho na Clínica de Fisioterapia somente à noite, na ala de geriatria. Massagem é minha especialidade. Melhorei minha qualidade profissional graças às generosas aulas de uma afoita monja tibetana. Depois que troquei o pneu do carro de Suzy, ela e a vó me tratam com impecável carinho. Mas percebo que a neta olha para minhas mãos com as retinas molhadas de malícia. Desde então, essa mulher de quadris desobedientes – animal no cio - ronda meus passos, meu paladar indigente.

Comemos, comemos e bebemos, e bebemos. A feijoada estava terrivelmente apetitosa. Muita pimenta e caipirinha. Ligamos a TV, a jornalista noticia: “O premier italiano Silvio Berlusconi promovia a festa do bunga-bunga em sua mansão...” Chegamos à avenida lotada de foliões. A banda se esgoelava, cantando: “Mamãe eu quero, mamãe eu quero/, Mamãe eu quero mamar!” Hoje farei minha melhor sessão de massagem, ela vai entrar em transe, verá estrelas multicoloridas, cogitava eu enquanto olhava o ventre de Suzy.

Ao lado, o Bosque dos Ipês com seus quiosques e bancos e árvores e pássaros e cheiro de urina. Olhei para a batata das pernas de Suzy, onduladas, brilhavam como a pele de uma maçã selvagem.  Começamos a dançar e dançávamos qual loucos vadios. Suzy ondulou os quadris contra meu braço direito, rodopiou, erguia e baixava toda aquela graciosa estrutura corporal com a vertigem de um pássaro embriagado de liberdade, pólvora às vésperas de explodir.

Eu a acompanhava naquele embate de sedução, extravagância de desejos guardados, reprimidos talvez. Sentia-me agitado, arrebatado pela chama ferina de Suzy. Setenta mil beijos, setenta mil fósforos a um milímetro da labareda. Ela pega minha mão, segura com firmeza, força de quem sabe o que quer, senhora de seus passos, e me conduz para o escuro do Bosque. Juntos, corpos ofegantes, suados, febre sem aspirina, desejo improrrogável. Ela, olhos marejados, quase murmurando, prendendo os lábios, fala: Não dá pra segurar, foi a feijoada! E eu, atônito, voz rouca, também confidencio: Foi a feijoada!

Pensamos em nos casar no próximo Carnaval. O amor também entende de dor e jardinagem.

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*Canção “Fora de Ordem”, Caetano Veloso.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Tequila e muita carne

Olhos largos, apimentados. Ela me olha com jeito terrorista, malícia carnívora. Lola estava sumida, cheguei a pensar que havia mudado de trabalho, ou mesmo de cidade. Já sentia falta daquele jogo dúbio, principalmente quando nos encontrávamos nos corredores da Agência. Fazia questão de puxar o elástico submerso, creio que só pra tumultuar minha respiração, causar tempestade nos meus sentidos primitivos. Não tenho dúvidas, sempre senti vocação para navegar naquelas águas caudalosas.

Preparo a melhor tequila do mundo, isso digo por conta dos sucessivos elogios recebidos ao logo de anos. Só entrego parte da receita: água com gás, gelo, limão, açúcar, muita tequila e... bis, bis. Estava no segundo copo, o telefone toca: Quero teu endereço, Bruno Jangadeiro, preciso te ver com urgência! Lola nunca foi de me telefonar. Permaneci como estava, nu, e como costumo ficar em casa; lendo uma reportagem sobre a sexualidade dos hipopótamos (eles ficam dias amando, ou melhor, trepando), bebendo minha tequila e ouvindo música flamenca – esperando aquela mulher de atributos generosos.

Chegou efusiva. Um beijo de língua nervosa. Uma rodada de corpo e copos e ouço o toque do elástico luxurioso – gesto costumeiro, no corredor da Agência - som de violino pervertido, lira de carne e brasa, bruxaria para meus apetites infindos. Num lampejo de conversas amenas, ela liberta dois pássaros rosados na minha cara de todas as sedes. Reajo com a fúria de um século de sede e fome. Lola diz, quase gritando: preciso de mais tequila e quero carne aflita, quero músculo tenso; e ordenou que navegasse em seu rio de águas profundas, remasse firme e forte com meu remo de madeira de lei. Navegar é preciso, Bruno, navegar é preciso, já dizia um louco poeta português. Viva todos os barcos, velas, canoas, navios, caravelas de todos os mares de todos os mundos possíveis! Ó Bruno, deixe teu submarino pirata descobrir segredos de civilizações perdidas! Seja um escafandrista das profundezas! 

Lola unta o corpo com suco de frutas ácidas, geléia de fígado de peru, azeite de mocotó, e dança uma dança tribal da Mongólia (é metida a antropóloga), depois brinca de pilates com a minha terceira perna. A pegada não está prevista na inocência do kama sutra. Pede para que eu calce as botas de alpinista - acho excitante, ela diz. Entra em estado de delírio. Dentes firmes, afiados, sofreguidão, mordia impiedosamente o braço esquerdo do sofá (comprei no Armazém Paraíba, faltam cinco prestações). Eu vivia a loucura em carne viva, Afrodite chafurdando o meu juízo.  Enquanto se contorcia, movimentos desesperados, língua inflamável, Lola falava da presença dos quenianos na corrida de São Silvestre. 

Cinco da manhã. Lola ainda com sua sarça em chamas. Eu, quase derrotado pela fartura de tequila e carne, acordo com a voz do motorista da Transbrasiliana: Senhor, já chegamos a Imperatriz!